COMO É QUE A DEPRESSÃO DOS PAIS AFETA AS CRIANÇAS?
A depressão é uma doença que não escolhe idade, sexo, raça nem classe social. Pode atingir qualquer um e as estatísticas mostram que pelo menos um em cada cinco adultos tem ou já teve um episódio depressivo. Nesse sentido, é fácil adivinhar o impacto que esta perturbação tem em termos familiares. Entre estes doentes estão muitos pais e mães, pelo que importa refletir sobre o que acontece aos filhos.
As pesquisas nesta área mostram
uma correlação direta entre a depressão do pai ou da mãe e a probabilidade
de os filhos desenvolverem alguma forma desta doença ou outras perturbações do comportamento.
Nestas estatísticas inclui-se a depressão pós-parto mas a verdade é que quando falamos da depressão do pai ou da mãe falamos de outras formas da doença que, nalguns casos, assume contornos de doença crónica.
Como é sabido, uma das consequências mais frequentes resultantes deste adoecimento é a falta de energia. O doente com depressão queixa-se frequentemente de desmotivação, incapacidade para honrar compromissos, vontade de ficar quieto, sem fazer nada. Ora, no que diz respeito ao papel parental é óbvia a diminuição da disponibilidade e da capacidade para dar atenção às necessidades da criança. Nalguns casos essa indisponibilidade é generalizável aos cuidados médicos de que a criança precisa. Não raras vezes, os pediatras são confrontados com o agravamento da saúde física das crianças, apenas explicável porque o adulto responsável não foi capaz de identificar a tempo a necessidade de intervenção médica. Por exemplo, se a criança tiver um problema crónico – como acontece no caso da asma – um progenitor com depressão pode evidenciar seríssimas dificuldades na aplicação do plano terapêutico que permitiria que as crises fossem evitadas.
Infelizmente, os médicos nem sempre se sentem confortáveis para abordar a hipótese de aquele progenitor precisar de ajuda especializada, ainda que reconheçam que, para ajudar a criança, é fundamental que os pais também sejam ajudados. A questão é que ainda existe algum estigma associado às perturbações de humor. Além disso, as idas ao pediatra continuam – infelizmente – a funcionar como um barómetro das competências parentais. Nenhum pai ou mãe quer ouvir que não está a cumprir o seu papel. Nenhum pai ou mãe está preparado para qualquer comentário que se assemelhe a uma avaliação negativa do seu papel parental. E os pediatras sabem disso.
Mas não há nada de insultuoso ou ofensivo no levantamento de questões a respeito da saúde emocional dos pais. Pelo contrário, ser pai ou mãe implica a responsabilidade de reconhecer que o nosso estado emocional condiciona a saúde – física e emocional – das nossas crianças. Mais: implica que confiemos na competência dos médicos e que interiorizemos a mensagem de que um pediatra dificilmente conseguirá ser bem-sucedido na ajuda às nossas crianças se ignorar o contexto familiar.
Como é que se sentiria se o pediatra do seu filho lhe perguntasse se está tudo bem consigo do ponto de vista emocional?
Até que ponto se sentiria ofendido se o médico levantasse a hipótese de o seu estado emocional estar a condicionar a saúde física do seu filho?
Aceitaria de bom grado a manifestação de preocupação com a hipótese de você estar deprimido(a)?
É fundamental que os médicos insistam nesta função, nomeadamente porque as perturbações depressivas e ansiosas SÃO TRATÁVEIS e não há nenhum motivo para que nos escondamos ou nos envergonhemos. Assumir a necessidade de ajuda especializada pode prevenir a agudização de determinadas doenças físicas da criança e pode, sobretudo, trazer um alívio imenso aos pais. Por outro lado, ao conhecer a prevalência de depressão na família o médico pode estar mais atento aos sinais de depressão na própria criança. Afinal, esta é uma doença com uma componente transgeracional.
COMO É QUE ALGUÉM SABE QUE ESTÁ PRONTO PARA UMA NOVA RELAÇÃO?
Terminar uma relação é sempre uma decisão difícil, a menos que se leve a vida de forma absolutamente despreocupada e irresponsável. A verdade é que, mesmo quando alguém assume que deixou de amar o seu companheiro, sente-se de algum modo responsável pelo bem-estar do outro, pelo que não raras vezes há sentimentos de pena e até de culpa que precisam de ser geridos. Além disso, há a própria perda, que leva algum tempo a ser ultrapassada. E desde que se tenha investido na relação que agora termina, há perda – mesmo que esteja claro que a separação é a decisão a tomar.
Algumas pessoas consideram – erradamente – que não há nada melhor para “curar” uma separação ou um divórcio do que começar uma nova relação, como se uma paixão ou uma amizade colorida pudessem compensar a perda recente. Do meu ponto de vista, esta postura é demasiado arriscada, tal como o seria tapar uma ferida sem a desinfetar primeiro. Ainda que doa, é preciso olhar para as nossas feridas emocionais, é preciso tratá-las. E isso pode levar algum tempo.
QUANTO TEMPO?
“O tempo que for preciso” pode não ser uma resposta muito clara nem objetiva mas é a resposta mais honesta. As relações amorosas que ficam para trás merecem um período de luto, mesmo para aqueles que tomaram a iniciativa de terminar. Há sonhos e expetativas que foram por água abaixo e que precisam de ser geridos com cuidado. Não há um número exato que possa ser fixado como o tempo ideal para que esse luto seja feito.
Para alguns especialistas, é razoável pensar que,
entre o fim de uma relação e o início de outra
deva existir aproximadamente
UM MÊS POR CADA ANO DE RELAÇÃO.
Isto é, se um casamento/ namoro durou 8 anos, então dever-se-ia esperar pelo menos 8 meses até que se pudesse pensar num novo relacionamento. Claro que na vida é praticamente impossível seguir fórmulas matemáticas. Além de que seria tudo mais entediante, digo eu.
Aquilo que me parece razoável é que a pessoa recém-separada possa sentir-se suficientemente à vontade para exteriorizar todos os pensamentos e emoções associados à relação que terminou, sem medo de ser julgada, sem constrangimentos. Isso pode ser feito por escrito – a criação de um diário ou até de um blogue pode ser terapêutica – mas também deve ser feito oralmente, junto das pessoas em quem se confia ou até de um terapeuta, se houver essa necessidade. O mais importante é que a pessoa não reprima estes pensamentos, nem se preocupe com aquilo que os outros possam pensar. Não raras vezes, a pessoa que tomou a iniciativa de romper um relacionamento evita falar sobre as marcas que ficaram daquela relação com receio de que os outros pensem que ele(a) está arrependido(a), por exemplo. Ou com receio que os outros fiquem aborrecidos (“Está sempre a falar no mesmo”). A verdade é que desta estruturação de pensamentos e sentimentos resulta o facto de a pessoa se sentir progressivamente mais forte, com mais inteligência emocional.
À medida que o tempo vai passando é suposto que a pessoa vá refletindo sobre algumas questões, que a ajudarão a seguir em frente:
Porque é que a minha relação acabou?
O que é que o meu Ex diria sobre os motivos que levaram à nossa separação?
Há alguma coisa em comum entre o fim desta relação e o fim das minhas relações anteriores?
A relação acabou mesmo ou há alguma coisa por resolver?
Quais são os meus sentimentos em relação ao meu Ex?
Como é que eu me sinto em relação ao fim deste relacionamento? Ainda alimento alguma esperança de que possamos voltar?
Já fiz o luto?
A ideia não passa por responder a estas questões uma única vez, mas antes por voltar a refletir sobre elas de vez em quando, até que deixe de fazer sentido. Até que esteja claro o que é que correu mal. Até que a própria pessoa seja capaz de identificar aquilo que fez bem e os erros que cometeu naquela relação. Para que se possa refletir sobre aquilo que se procura numa nova relação.
Este é outro eixo fundamental na reflexão que se pretende que ocorra depois de uma separação. Porque há pessoas que aparentemente cometem SEMPRE os mesmos erros. Porque há pessoas que escolhem SEMPRE o mesmo “tipo” de parceiros. Para que se passe a fazer escolhas mais saudáveis e se fuja aos relacionamentos problemáticos é fundamental responder a outras questões:
O que é que eu aprendi com a escolha do(s) meu(s) parceiro(s) anterior(es)?
Será que escolho sempre o mesmo tipo de pessoa? Será que tenho cometido sempre os mesmos erros? Tenho escolhido pessoas que não me respeitam? Ou que não me dão o afeto que eu mereço?
Que características é que eu valorizo num companheiro?
Estarei à procura de qualidades que eu próprio(a) não possuo?
Estarei preparado(a) para viver com alguém que seja diferente de mim? Serei capaz de aceitar que é impossível mudar o outro?
O que é que preciso mudar em mim para poder ser feliz numa nova relação?
Nenhuma relação acaba por “culpa” de uma das partes. Cada relação é uma dança cujo ritmo é definido pelos dois. Ambos são corresponsáveis pela forma como a dança decorre. Ambos são corresponsáveis pelo seu fim.
Para que se possa investir numa nova relação de forma saudável é essencial que nos sintamos confortáveis na nossa própria pele. A sensação de se ter um companheiro é, efetivamente, muito boa. Mas pode ser temporária se não estivermos preparados. Acha que está preparado para uma nova relação? Então responda a (só mais) estas questões:
Sinto-me suficientemente forte sozinho(a)? Gosto da minha vida (independentemente de ter ou não um companheiro)?
Sei quais são os pilares de uma relação amorosa emocionalmente inteligente?
Sei ser um companheiro emocionalmente inteligente?
Há outras coisas na minha vida que me preencham ou passo a vida à procura de/ a pensar em ter uma nova relação?
Há outras relações afetivas (não amorosas) na minha vida?
Estarei a evitar alguma coisa?
Sei o que é que procuro numa relação amorosa? Compromisso? Diversão?
Sei expresser de forma clara e honesta aquilo de que preciso numa relação?
Calma! Ninguém está permanentemente 100% seguro de si e daquilo que pretende numa relação. Contudo, a reflexão que resulta deste tipo de questionamento é a base para que se faça escolhas emocionalmente mais inteligentes e, portanto, se cometa menos erros.
CONSULTAS DE PSICOLOGIA ATRAVÉS DA INTERNET (SKYPE)
Tenho-me referido inúmeras vezes ao impacto que a evolução tecnológica tem provocado nas relações afetivas, bem como às vantagens e desvantagens de algumas ferramentas. De um modo geral, aquilo que escrevo é o reflexo daquilo a que vou acedendo no consultório, em particular às queixas das pessoas com quem trabalho. Mas há um lado desta revolução cibernética que ainda não foi aqui explorado e que diz respeito às próprias consultas. Se até há relativamente pouco tempo o acompanhamento de um psicólogo estava reduzido ao espaço de um gabinete, agora as alternativas globalizaram-se.
Hoje é possível que um português residente numa localidade onde não haja um serviço de Psicoterapia possa realizar estas consultas sem ter de se deslocar a um centro urbano. Se pensarmos no que é possível poupar no que diz respeito às deslocações, já é possível antecipar algumas vantagens.
Mas esta possibilidade é ainda mais vantajosa para uma fatia específica da população – os emigrantes. Já imaginou como se sentiria se tivesse necessidade de recorrer a um psicólogo que não falasse a sua língua materna? A verdade é que por maior que seja o nosso conhecimento de uma segunda língua, é-nos muito mais fácil organizar os nossos pensamentos e as nossas emoções ao falarmos na nossa própria língua. Por outro lado, sentimo-nos invariavelmente mais acolhidos.
Em termos clínicos também é possível identificar um público-alvo para quem esta modalidade pode ser, pelo menos no início do tratamento, a melhor opção:
Os pacientes que sofrem de agorafobia
e que têm medo de sair de casa.
Ou aqueles que se sintam demasiado inseguros
para se encontrarem fisicamente com um psicólogo.
Pode parecer ridículo, já que a existência de uma fobia deveria servir exatamente para que a pessoa se sentisse motivada para dar esse passo mas a verdade é que os medos podem ser assustadoramente incapacitantes e, sem esta alternativa, algumas pessoas vivem aprisionadas durante anos.
COMO FUNCIONA?
O Skypeé o programa informático mais utilizado nas consultas online. Trata-se de um software que permite a videoconferência com níveis de qualidade acima da média e que tem a grande vantagem de permitir fazer chamadas – de voz e imagem – gratuitas de um computador para o outro. De resto, as consultas têm normalmente a mesma duração e a mesma frequência do que as consultas presenciais. Para algumas pessoas a videoconferência tem a mais-valia de poderem olhar mais proximamente para o rosto do terapeuta (que, por motivos óbvios, está perto da câmara e, por isso, virtualmente mais perto do paciente).
É lógico que também existem desvantagens associadas a esta alternativa e importa que fique claro que a primeira opção deve ser o acompanhamento psicoterapêutico presencial. Ainda que existam ferramentas cada vez mais evoluídas, nada substitui os recursos inerentes à comunicação cara a cara. Quando um terapeuta conversa presencialmente com um paciente tem oportunidade de dar atenção não apenas à comunicação verbal, mas também a todos os gestos e outros elementos que compõem a comunicação não-verbal. E qualquer psicólogo reconhece a importância destas questões, subtis e tantas vezes impercetíveis ao olhar de um leigo.
Por outro lado, as consultas online envolvem mais riscos em termos da fiabilidade do serviço que está a ser prestado, pelo que, mais do que nunca, é fundamental que quem procura esta alternativa se certifique de que está a recorrer a um profissional experiente e qualificado. De resto, em caso de dúvida, a Ordem dos Psicólogos Portugueses permite atualmente verificar se determinado profissional se encontra ali inscrito.
Tal como acontece na terapia presencial, as consultas são marcadas previamente, pelo que há um horário predefinido. Ora, importa que, a essa hora, o paciente possa certificar-se de que estará num local com acesso à Internet e que haja garantias de que a sessão decorrerá sem interrupções. Escusado será dizer que a realização destas consultas não deve ocorrer enquanto o paciente estiver no seu local de trabalho, sob pena de não estarem reunidas as condições de privacidade. Em casa também é fundamental que o paciente esteja suficientemente confortável, sem a pressão de ter de dar atenção – naquela hora – aos compromissos familiares.
Sou diariamente confrontada com queixas que incluem relatos de insultos, humilhações, falsas acusações, traições e outros abusos emocionais dentro da relação conjugal. Não me refiro apenas às pessoas que acompanho no consultório mas sobretudo aos inúmeros emails que recebo TODOS OS DIAS. São descrições mais ou menos exaustivas de um vasto conjunto de episódios que a maioria das pessoas rotularia de inadmissíveis. E aqui reside a motivação para este texto:
Porque é que estas pessoas admitem aquilo
que a maior parte de nós não admitiria?
Por que toleram estes abusos?
Por que insistem em manter-se ligadas
a um cônjuge que não as respeita?
A resposta, na primeira pessoa, é quase sempre a mesma: “Porque gosto mesmo dele(a)”.
É fácil perceber que a maior parte destas pessoas encara o fim de uma relação como extremamente penoso. Na verdade, nunca é fácil terminar um relacionamento e é por isso que há tantas pessoas a eternizar relações amorosas mesmo quando já não há um vínculo romântico. Porque o fim é quase sempre doloroso. Porque envolve mágoas, perdas, sentimentos de culpa e de pena que podem corroer a estabilidade de qualquer um.
Mas estas são situações limite.
São laços que tão-pouco são dignos do rótulo de “relações amorosas”, na medida em que são tudo o que o amor não é. E ainda que os diversos abusos sejam intercalados com momentos que as próprias pessoas rotulam de agradáveis, a disfuncionalidade é evidente. Como é evidente a deterioração do amor-próprio, da segurança emocional, do respeito.
E tudo o que pode correr mal
quando perdemos o respeito por nós mesmos
ACABA MESMO POR CORRER MAL.
Voltando aos pedidos de ajuda que recebo por email, é relativamente fácil constatar que em boa parte desses casos não há verdadeira vontade de mudar. A pessoa queixa-se e dá um “grito” que mostra o nível de desespero mas isso não significa que se sinta pronta a romper com a disfuncionalidade. Na verdade, em muitas destas situações a pessoa sente-se mal mas também se sente condenada. E, aos seus olhos, só um milagre as pode libertar. Na prática, ignoram que o poder da mudança está em si mesmas.
Sendo compreensível que para alguém que já perdeu boa parte da sua autoestima não seja mesmo nada fácil encontrar uma saída, não é aceitável que nada seja feito. E é ainda menos aceitável que a tolerância para com os abusos continue quando há filhos que, enquanto elo mais fraco, ficam tantas vezes irreversivelmente marcados por estas escolhas.
Aquilo que a prática clínica mostra é que, na maior parte das vezes, o corte com este padrão acontece quando se bate no fundo. Nalguns casos isso implica que é preciso passar-se para a violência física; noutros casos o “Basta!” surge depois de os filhos darem sinais do impacto desta violência.
Como já tive oportunidade de referir, os problemas com a família de origem são um dos principais focos de tensão na vida a dois e são também um dos motivos por que muitas pessoas sentem necessidade de recorrer à terapia (individual ou de casal). Como quase todas as pessoas já experimentaram algum nível de tensão associado ao relacionamento com os sogros, pode parecer exagerado que haja tanta gente a recorrer à ajuda clínica para lidar com um problema que, na maioria das vezes, pode ser gerido pela própria família. No entanto, como acontece noutras áreas da conjugalidade, o problema passa a merecer a intervenção externa quando as competências do casal já não chegam para dar resposta às dificuldades e/ou quando estas se prolongam indefinidamente deteriorando os laços. E há alguns casos em que a tensão é muito elevada e está quase sempre presente.
De um modo geral, as dificuldades que levam a que alguém peça ajuda especializada dizem respeito à ausência de fronteiras claras em relação à família de origem. Nalguns casos, as fronteiras são difusas porque os pais/sogros têm ou tiveram algum controlo financeiro sobre o casal (financiando a casa ou atribuindo-lhes uma mesada, por exemplo); noutros casos a interferência excessiva está diretamente relacionada com a carência afetiva dos progenitores e a falta de assertividade dos filhos; e ainda há as situações em que os limites são pouco claros em função da debilidade/ dependência dos progenitores. Em qualquer destas circunstâncias há uma coisa que falha:
Os membros do casal não conseguem
colocar a sua relação em primeiro lugar.
Na maioria das vezes as discussões atingem níveis perigosos de agressividade na medida em que há uma pessoa que se sente preterida (e o pedido de ajuda clássico continua a ser proveniente das noras que se queixam de ver a sua vida “invadida” pelas sogras) e há outra que se sente forçada a escolher entre o amor aos pais e o amor ao cônjuge.
Ora aquilo que está em causa nestas situações
NÃO é a necessidade de escolher entre duas formas de amor.
O que está em causa é a clarificação dos papéis.
Para que cada um dos membros da família possa sentir-se livre para viver a sua vida é preciso que reconheça aquilo que é esperado de cada etapa do ciclo de vida. O problema está muitas vezes nas lacunas que existem na vida dos pais/ sogros e que NÃO PODEM/ NÃO DEVEM ser preenchidas pelos filhos. Estas lacunas podem estar relacionadas com a deterioração da relação conjugal ou até com a inexistência desse papel (por viuvez ou por divórcio). Em qualquer dos casos, tentar viver a vida através da vida dos filhos não é solução. Pelo contrário, é limitativo para os próprios pais, na medida em que não desenvolvem novas competências e novos laços; e é limitativo para os filhos que, na maior parte dos casos, se nada for feito, veem a sua relação degradar-se.
A depressão é a doença com que a maioria dos psicólogos lida com mais frequência. Não é por acaso que lhe chamam a epidemia do século. É uma doença incapacitante, que transforma aqueles de quem gostamos em pessoas estranhas, com reações imprevisíveis e a luz ao fundo do túnel pode tardar em aparecer.
Como é que alguém pode lidar com um cônjuge deprimido que, de um momento para o outro, deixa de ser uma pessoa ativa e conversadora e passa a ser alguém que se esconde em casa e mostra incapacidade de se entusiasmar com o que quer que seja?
Como é que um pai ou uma mãe podem lidar com um filho que, num momento, tinha todos os sonhos e toda a energia do mundo, e, noutro, mostra vontade de desaparecer?
O que é que se diz a alguém que olha para o mundo de forma tão pessimista e desesperada?
E como é que se consegue continuar a trabalhar, continuar a sair, continuar a viver quando alguém de quem se gosta tanto está tão doente?
A resposta a estas questões começa pela aceitação de que esta é uma doença que afeta o paciente bem como aqueles que estão à volta. Depois importa que, na medida do que for possível, não apenas o doente seja acompanhado mas que também as pessoas da sua família possam sentir-se ouvidas, amparadas, sob pena de os laços não resistirem à pressão. Afinal, por mais que gostemos de alguém, e ainda que existam laços de consanguinidade, muita coisa muda quando a pessoa que está doente deixa – às vezes durante muito tempo – de estar lá. O que é que isso quer dizer? Que um marido/ filho/ irmão carinhoso pode passar a ignorar os seus familiares. Ou que aquele que antes saía diariamente de casa se enfie no quarto e se mostre incapaz de qualquer interação positiva. Ou que deixe de conseguir trabalhar. Ou que mostre constantes sinais de irritabilidade. Estes são apenas alguns dos possíveis danos provocados pela doença e que importa “digerir” em contexto terapêutico.
Estes maridos e mulheres, estes pais e filhos e irmãos de pessoas com depressão não são super-homens nem super-mulheres e não têm de estar sempre com o humor e a energia em alta. Precisam de espaço para mostrar a sua própria vulnerabilidade, precisam de carregar baterias e precisam de alimentar a esperança de que, com o devido acompanhamento e com o seu próprio amparo, o seu familiar vai melhorar e os laços vão voltar a ser devidamente alimentados. E isso pode ser conseguido com o acompanhamento psicoterapêutico.
Paralelamente, precisam de continuar a investir em si, mantendo as atividades que potenciem a capacidade de se abstraírem, nem que seja por um par de horas, dos problemas familiares. E precisam de conseguir falar abertamente sobre os problemas com as (outras) pessoas da sua confiança, evitando o efeito “panela de pressão”.
Creio que já o afirmei por aqui um par de vezes: muitas das diferenças entre homens e mulheres de que se ouve falar não passam de estereotipagens propagandeadas por livros de autoajuda e reportagens com títulos “bombásticos” que procuram vender jornais e revistas, mais do que informar de modo rigoroso. Não fosse o facto de tantas vezes ser efetivamente mais fácil rotular algumas dificuldades de comunicação com recurso às famosas diferenças de género e muito provavelmente estas teorias já teriam deixado de vender o que quer que seja. O problema está no impacto que daí resulta para as nossas relações afetivas. Afinal, sempre que um marido se esquiva a uma conversa séria sobre as dificuldades da relação e a mulher releva o acontecimento com pensamentos do tipo “Os homens não sabem/ não gostam de falar sobre sentimentos”, há uma lacuna que começa a crescer e que, a prazo, pode revelar-se muito perigosa.
Aquando da minha participação na Feira do Livro tive oportunidade de conversar com alguns leitores e uma das questões que surgiu tinha a ver, precisamente, com a ideia preconcebida de que são as mulheres que, em larga maioria, recorrem à ajuda da Psicoterapia e que são elas que estão mais predispostas a falar sobre as suas emoções. Compreendo por que existem tantas ideias feitas a respeito desta matéria e não atribuo aos meios de comunicação a inteira responsabilidade sobre esta distorção da realidade. O que acontece é que, dentro de cada casa, não raras vezes se instalam padrões de comunicação que obedecem aos tais estereótipos, pelo menos numa análise superficial. O que quero dizer é que QUANDO HÁ DISCUSSÕES ACESAS é mais frequentemente o homem a retirar-se da discussão – calando-se ou saindo, de facto, daquele lugar. Isso acontece principalmente porque os homens sofrem de níveis de ativação fisiológica mais elevados nestes momentos e, a partir de determinada altura, é mesmo fisicamente insuportável manter a discussão. Depois, porque ainda há uma percentagem significativa de homens que não foi educada no sentido de expressar abertamente as suas emoções. Ora, o que é que acontece a alguém que não esteja habituado a estruturar pensamentos a respeito dos afetos? Tenderá a exterioriza-los de forma muito mais atabalhoada, o que, em momentos de tensão, é gerador de equívocos. É nestes ciclos perigosos que alguns homens acabam por sentir-se mais seguros ficando calados. Afinal, as tentativas falhadas deixam marcas.
Como tive oportunidade de explicar na Feira do Livro, estas diferenças não são transpostas para a sala de terapia na maior parte dos casos. Pelo contrário, boa parte dos processos de terapia de casal são marcados, logo a partir da primeira consulta, pelo rompimento de padrões de comunicação disfuncionais. E não são raras as vezes em que a mulher se surpreende com o tanto que o marido, afinal, tem para dizer sobre aquilo que sente. Por que o faz apenas em sede de terapia? Porque se sente seguro, porque ali há um profissional que funciona, acima de tudo, como um facilitador a quem compete, dentre outras funções, impedir que a escalada cresça, que os cônjuges se interrompam mutuamente ou ainda que as críticas se sobreponham à exposição das necessidades de cada um.
Há muitos homens a pedir ajuda psicoterapêutica – quer a nível individual, quer para salvar o seu casamento – mas isso não significa que eles o façam tantas vezes quanto elas. Ainda não. E sobretudo não significa que o façam tão cedo quanto elas o fazem. Mas estas diferenças não podem ser atribuídas à genética. A verdade é que continuamos, enquanto sociedade, a criar expetativas diferentes em relação a meninos e meninas, continuamos a comportar-nos de maneira diferente em relação ao mesmo comportamento em função do género do protagonista. E depois convencemo-nos de que algumas dificuldades de comunicação nas relações entre homens e mulheres se devem ao facto de termos necessidades diferentes.
Isso é um MITO!
Como é que as nossas expetativas alimentam esse mito?
Continuamos a esperar que os homens sejam uns heróis, sem medos. Aos homens “compete” resolver problemas, fazer reparações, arranjar o que tiver de ser arranjado. E depois espera-se que eles exponham as suas vulnerabilidades, reconheçam que há problemas na relação e que sejam ELES a pedir ajuda?
Esperamos que os homens sejam capazes de fazer reclamações e de impor o respeito nem que, para isso, tenham de ser agressivos e dar um par de berros. Às mulheres compete serem calmas e doces, pelo que qualquer manifestação de raiva é sinónimo de descontrolo.
Qualquer mulher pode chorar em público, sem que daí advenha qualquer juízo de valor. Pelo contrário, são frequentes os incentivos do tipo “Chora. Faz-te bem. Deita cá para fora”. Mas a maior parte dos homens seria rotulado de fraco (ou pior) se o fizesse.
As mulheres são incentivadas a mostrar o afeto através dos gestos – cumprimentam-se com abraços e beijinhos, mesmo no local de trabalho. O que é que aconteceria se dois colegas homens se abraçassem? Seriam quase de certeza rotulados de efeminados ou gays.
Em que é que homens e mulheres são idênticos?
Ambos são condicionados pelas expetativas sociais.
Sempre que o homem cai na tentação de mostrar que é o “chefe de família”, a principal fonte de rendimento da sua família e a mulher tenta ir ao encontro da ideia de que ela é a principal cuidadora, ambos arriscam voltar costas aos seus sonhos e ambições.
Ambos buscam a autenticidade – poderem mostrar de forma livre aquilo que sentem e aquilo de que precisam.
OS PERIGOS DO FACEBOOK – UMA AMEAÇA ÀS NOSSAS RELAÇÕES?
(Entrevista concedida à revista Happy Woman a propósito da reportagem “O Facebook estragou-me a vida”)
Devemos ter o nosso companheiro adicionado como amigo no Facebook? Porquê?
Começando por salientar que o que é fundamental – no Facebook como noutras áreas da conjugalidade – é que os membros do casal conversem abertamente e criem as suas próprias regras, a resposta é sim. O FB é uma plataforma de comunicação que nos coloca em linha direta com amigos com quem convivemos diariamente mas também como perfeitos estranhos que rapidamente podem aceder a fragmentos da nossa intimidade. Ser amigo do cônjuge no FB não tem de equivaler a comportamentos de bisbilhotice mas antes à transparência e honestidade que se espera que caracterize uma relação íntima. Quanto maior for a clareza em torno do que cada um faz na rede social do momento, maior será com certeza a segurança na relação. Pelo contrário, a ideia de esconder do parceiro uma parte – nalguns casos significativa – das nossas conexões afetivas implica abrir espaço para equívocos e inseguranças que podem dar origem a problemas sérios.
Quais são os verdadeiros motivos que podem «estragar» a relação face à utilização do Facebook? Ciúme? Outros?…
Sendo, como referi antes, um meio de comunicação que facilita o alargamento da nossa rede de contactos, o FB é uma porta aberta a relações superficiais em que o retorno é quase sempre positivo e as desilusões/ frustrações são praticamente inexistentes. Do outro lado do ecrã está quase sempre alguém que parece empatizar com os nossos desabafos, que nunca se queixa e que, ainda por cima, tem a frescura que um relacionamento de longa data pode não ter. Se a estes fatores adicionarmos o facto de ser relativamente fácil aproveitar esta rede social para “rever” antigos colegas de escola ou até ex-namorado(a)s, está criado o terreno fértil para o aparecimento de problemas. Esta realidade é mais visível entre casais que já estavam de algum modo afastados mas pode atingir casais aparentemente saudáveis. É precisamente porque é fácil encantarmo-nos com o facilitismo destas reconexões que há que criar limites, definir horários para a utilização do FB e continuar a olhar para dentro da relação.
Depois claro que há dificuldades iniciais por que quase todos os casais passam e que estão relacionadas com aquilo que se deve ou não fazer no FB de modo a não ferir suscetibilidades. E aqui volta ser importante enfatizar que o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra pelo que só o diálogo permitirá que cada casal construa as suas próprias regras. Para alguns casais não há problema nenhum no facto de o marido colocar um “gosto” na fotografia de uma amiga que se apresenta em biquíni, enquanto para outros isso pode ser fonte de angústia e de insegurança.
A privacidade do casal é comprometida no Facebook? Como evitar?
Vivemos numa era em que quase tudo aquilo que fazemos é público e importa que interiorizemos que daqui para a frente não controlaremos tudo aquilo que diga respeito à nossa privacidade. A verdade é que qualquer um dos nossos amigos reais pode publicar uma fotografia nossa no FB, identificando-nos mesmo que não tenhamos um perfil ativo. Ainda assim, a verdade é que o próprio FB coloca à disposição de todos os utilizadores um vasto conjunto de ferramentas que permite definir aquilo que é partilhável ou não e com quem. O problema é que, tanto quanto me é dado a perceber, a maior parte das pessoas desconhece estes recursos e acaba tantas vezes por diabolizar a própria rede social. No que diz respeito às relações conjugais, compete a cada casal definir aquilo que considera saudável partilhar com a respetiva rede de amigos. Independentemente disso há regras que deveriam ser seguidas por todos os casais e que têm a ver com a exposição da intimidade emocional. Não faz sentido, por exemplo, usar o FB para publicar textos ou vídeos em tom de desabafo denunciando alguma forma de mal-estar ou tensão entre o casal. A verdade é que essa exposição abre espaço para equívocos, escalada da própria tensão e, claro, para o aparecimento de falsos “ombros amigos”, mais voltados para a possibilidade de viverem um affair.
Por que razão há tantas mulheres (e também alguns homens) a espiarem o perfil do parceiro atual e, mais «estranho» ainda, dos ex-companheiros?
A maior parte das pessoas é naturalmente curiosa e o FB alimenta algum voyeurismo. No que diz respeito a espiar o parceiro, o comportamento é sobretudo o reflexo da ausência de comunicação eficaz. A verdade é que quanto maior for a insegurança de um dos membros do casal, maior a probabilidade de ocorrência destes comportamentos e de surgimento de ciclos viciosos perigosos – porque quem é espiado pode aperceber-se disso mesmo e, ao sentir-se atacado/ invadido, pode (erradamente) esconder ainda mais aquilo que faz no FB agudizando a insegurança do outro.
A curiosidade em relação ao perfil do Ex pode estar relacionada com o facto de ainda existirem mágoas e/ou ao facto de a pessoa ainda não ter conseguido desvincular-se do antigo companheiro. Isso não significa que haja qualquer intenção de retomar a relação – na maior parte dos casos não há – mas significa, isso sim, que a gestão emocional ainda não está completa. Quando nos desvinculamos, aquilo que os Ex fazem deixa de ser relevante.
Devemos ter familiares adicionados? Até que ponto isso é positivo ou negativo?
As fronteiras que existem no FB devem assemelhar-se às que aplicamos no convívio real. Se para a generalidade das pessoas não faz sentido fechar a porta de casa a familiares, tão pouco será lógico escancarar à família alargada a intimidade emocional ou sexual, por exemplo. Ora, no FB é possível partilhar alguma informação com os nossos familiares, ocultando aquilo que não nos parecer razoável dar a conhecer.
Partilhar conteúdos só para grupos de amigos e outros não terem acesso é uma solução?
Como referi antes, essa é uma das funcionalidade que o FB oferece e que me parece um recurso interessante. A criação de listas de amigos permite-nos facilmente escolher com quem partilhar o quê, tal como fazemos na vida real.
Devemos ter colegas de trabalho adicionados? Porquê?
Nem todas as pessoas se sentem confortáveis com a ideia de adicionar colegas de trabalho a uma rede social tão informal quanto o FB, no entanto, a verdade é que o facto de adicionarmos alguém não implica que aquela pessoa passe a aceder a conteúdos íntimos. No limite, é possível aceitar o convite de alguém restringindo o acesso a todas as nossas publicações e dados pessoais. Por outro lado, a verdade é que existem redes sociais, como o Linkedin, que estão mais voltadas para as relações profissionais mas que não têm, pelo menos em Portugal, o grau de adesão que o FB tem.
Como podemos delinear limites de privacidade para não sermos prejudicados ou mal interpretados?
A resposta a esta pergunta é relativamente simples e está relacionada com as escolhas que fazemos fora da Internet. Se no dia-a-dia não nos imaginaríamos a partilhar fotografias das nossas férias com o nosso patrão, por que o faríamos no FB, por exemplo? Se tivermos presente que as redes sociais são uma extensão da nossa vida real, é relativamente fácil discernir sobre os limites da privacidade. Por outro lado, é óbvio que devemos ter em consideração que há assuntos que nem sequer faz sentido abordar por escrito, na medida em que isso geraria uma probabilidade maior de ocorrência de equívocos, e que portanto não devem ser expostos no FB. A dificuldade pode estar na interiorização de que há questões que só podem ser resolvidas presencialmente, com a pessoa certa, no momento certo e de forma assertiva. Deparo-me demasiadas vezes com pessoas que estão habituadas a “discutir” assuntos sensíveis por SMS ou via Messenger, ignorando que dessa escolha resultam níveis de tensão significativamente superiores.
Se algumas pessoas que não queremos adicionar no Facebook (por exemplo ex-namorados, etc…) nos enviarem um pedido de amizade como podemos recusar sem sermos comprometidos?
A assertividade – capacidade para expormos as nossas opiniões de forma clara e honesta sem desrespeitar os outros – é uma competência fundamental nas relações afetivas e sociais. Cada pessoa deve ser capaz de fazer as suas escolhas e de as assumir, ainda que isso frustre as expetativas de outrem. A verdade é que é preciso pesar os prós e os contras e, de um modo geral, corremos mais riscos quando dizemos sim querendo dizer não, isto é, quando optamos pela passividade. Dizer algo como “Eu sei que me enviou um pedido de amizade mas não aceitei porque na minha rede prefiro ter apenas as pessoas mais próximas” não é ofensivo nem comprometedor.